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Tecnologia e gestão são fundamentais para diminuição de perdas de água

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Por Yves Besse*

Um dos principais indicadores de eficiência operacional dos serviços públicos de abastecimento de água é a perda. Hoje no Brasil as perdas estão em média 40%, comprovando uma péssima gestão. A cada 100 litros de água bruta que se capta na natureza, apenas 60 litros são entregues, medidos e cobrados da população. Mas quem é do setor sabe que na realidade esse número está muito mais perto dos 50%, já que muitos operadores estimam suas perdas sem efetivamente medi-las de forma consistente.

Para que possamos dar solução a esse assunto necessitamos conhecer adequadamente o seu problema. As perdas são geralmente de duas origens: as físicas, que provêm de perdas nas instalações operacionais tanto de produção como de distribuição – e as comerciais, consequências da má gestão da clientela e do seu respectivo faturamento. Mesmo sendo de aspectos totalmente diferentes, essas perdas somente serão solucionadas se enfrentadas a partir de metodologias de trabalho, de tecnologias adequadamente aplicadas e de constância e foco no médio e longo prazo. No caso das perdas comerciais, as gestões da clientela e do parque dos hidrômetros – os medidores de consumo de água – são as principais ações a serem implementadas. Percebe-se, já na definição das ações, que a gestão é a palavra-chave.

Com um bom sistema comercial adequado as características do tipo de usuários dos serviços públicos de água – grande quantidade de consumidores e pequeno consumo – é que se poderá ter uma gestão eficiente. Porém, a eficácia desse sistema terá efeito se estiver associada a uma gestão adequada dos dados que o alimentam: tipo de cliente, nome, endereço, condição social, tipo de hidrômetro, consumo etc., dados esses que são dinâmicos e que devem sistematicamente serem verificados, atualizados e controlados.

Um bom sistema de gestão do parque dos hidrômetros possuiu aspectos técnicos relativos à escolha adequada do tipo de hidrômetro – devido às características e o volume da água que mede -, a sua vida útil e a sua correta instalação. Possui aspectos operacionais como a necessidade de um sistema de manutenção preditiva – e não corretiva – do parque dos hidrômetros, em função das suas características técnicas e do seu uso. E a eficácia dessa gestão de medidores passa por um planejamento adequado de implantação das ações definidas e uma constância dessas ações no tempo.

Ressalta-se que a gestão comercial sem gestão de hidrômetro e vice-versa não obterá resultados adequados num programa de redução de perdas. As perdas físicas têm características diferentes em função do tipo de instalações operacionais: as de produção e as de distribuição da água produzida.

Na produção é necessário gerenciar as perdas como toda e qualquer unidade industrial faz. Medições ao longo das linhas de produção com seus respectivos indicadores, alertas em caso de disfunções, recirculação das águas no caso da retro lavagem etc. e o todo interligado num centro de controle a partir de sistema de telegestão.

Na distribuição, a gestão das perdas é mais complexa. Na sua grande maioria, as redes de água são enterradas, o que não permite visualizar se há ou não perdas. Deve-se gerenciá-las implementando um plano de setorização definido a partir de um projeto hidráulico que leve em conta diversas características, como topografia, pressão, volume, material e diâmetro das tubulações etc. Assim, é possível fazer a gestão das perdas por setor, identificando-as com a medição do volume de água que entra e o volume de água que sai, seja pelo consumo dos usuários ou passagem para outro setor. Percebe-se que isso somente será possível se temos em paralelo um bom sistema de gestão da clientela e de medidores. Outro aspecto fundamental é a utilização de equipamentos de medição inteligentes, os famosos smart, que transmitam sistematicamente suas informações aos centros de controles.

E, finalmente, um dos pontos fundamentais da gestão para redução de perdas: as pessoas. Se mesmo após a adoção de bons sistemas de gestão de perdas comerciais e físicas não houver equipes bem dimensionadas e formadas para operar os sistemas com eficiência e eficácia, com foco e visão de médio e longo prazo, os resultados esperados não acontecerão.

Percebe-se então o quanto complexo é o tema de perdas e o porquê de não conseguimos avançar de forma mais consistente com esse assunto no Brasil. País onde a maioria dos serviços públicos de água é feita por empresas públicas, que sofrem sistematicamente ingerências políticas que favorecem ações populistas de curto prazo e alto resultado mediático, mas operacionalmente ineficiente e ineficaz. Tudo isso nos mantêm na posição vergonhosa de 112º país no ranking mundial do saneamento de 200 países.

*Yves Besse é diretor geral de Projetos para América Latina da Veolia Water Technologies